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Nicolas Behr e a liberdade de expressão


Texto por: Isabella Veloso e Michael Rios
Arte: Michael Rios


Poeta mato-grossense que escolheu Brasília como lar apresenta sua visão sobre a liberdade de expressão e a democracia em entrevista concedida à Isabella Veloso e Michael Rios.

Sofri uma censura no regime militar. Fui preso e processado – isso no último ano do governo Geisel.

Ditadura e liberdade de expressão são antagônicos, a ditadura sempre estará contra a liberdade de expressão. É uma regra geral.

Eu sofri isso na pele, fui preso, meus livros foram apreendidos e fui a julgamento. O que eles queriam era um mimeógrafo. Eu imprimia muitos livros e panfletos, na época não existia a internet e o negócio era o mimeógrafo que distribuía carta aberta para a população pelas liberdades democráticas. Eles achavam que eu tinha uma central de mimeógrafos, uma gráfica clandestina, alguma coisa assim. Invadiram a minha casa em busca do equipamento, apreenderam todos os meus livros, mas não encontraram nada. Os mimeógrafos ficavam espalhados pelas escolas, pelos colégios e supletivos. Hoje não existe mais, foram substituídos pelas fotocópias.

Fui preso por posse de material pornográfico.

Queriam me jogar na lei de segurança nacional, AI5, que vigorava. Não acharam o mimeógrafo e nem a gráfica, então queriam me colocar na lei de segurança nacional por posse de material pornográfico. Eu tinha muitos livros, de outros autores e alguns meus. Eles juntaram tudo, e fora de contexto houveram palavras com um impacto forte.
Meu advogado pegou os Cânticos de Salomão, que são muito eróticos, e mostrou que se você tira palavras do contexto você pode ter uma interpretação errônea. Ele provou para o juiz que eu fui mal interpretado.
Hoje a liberdade de expressão e a democracia são um bem e eu fico pensando quando há liberdade de expressão e quando não há liberdade de expressão. Há liberdade de expressão quando a sociedade está madura e segura.
Por que há a ditadura? Por que começa um Golpe? Por que há o autoritarismo? Por que um grupo acha que a sociedade precisa se desfazer e toma o poder? E aí a sociedade vai amadurecendo e eu fico pensando por que hoje estamos em uma democracia?

A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela, dizia Churchill.

A democracia é um sistema que exige muito de nós. Existe sempre a tendência autoritária, tanto de direita quanto de esquerda, é a tentação autoritária que fala que a sociedade sempre busca uma solução autoritária para as suas demandas.
A democracia é difícil, mas ela é maravilhosa. Nós temos mais de 30 anos de democracia no Brasil. Nunca tivemos um período tão longo de democracia. É impressionante, não é? E é sempre assim: democracia, ditadura, democracia de novo. E temos que ficar atentos para não haver ditadura nem de esquerda e nem de direita. Nada!
Vemos por aí as manifestações e eles têm todo o direito de protestarem, isso é democracia! As pessoas como Bolsonaro... O Bolsonaro representa uma tendência. É horrível, é escroto, mas a democracia convive com isso. Temos que conviver com isso, não podemos deixar tendências autoritárias de muitos grupos evangélicos e radicais tomarem o poder. Não pode, deve-se manter a democracia. Isso é difícil, isso é complicado, isso é perigoso, mas eu acho que a liberdade de expressão é um bem, como dizia Voltaire: “Eu não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las”.

O mais interessante é como a ditadura tem medo. Como as ditaduras são frágeis, como elas são inseguras, e principalmente covardes e medrosas.

E o que segura uma ditadura? A ditadura sempre é fruto do conformismo, “alguém vai decidir por mim”, “eu não quero participar” a ditadura é você entregar o poder a alguém, a outro, e eles que decidam, eles que façam. É muito cômodo.

A democracia é a liberdade de expressão.

A volta da ditadura é difícil, mas é possível. Acho muito complicado, também com a internet, com os meios de comunicações, sabe? É remota, mas a possibilidade existe.
Ditadura trouxe o quê? Trouxe censura. Muitos querem a volta da ditadura, uma porcentagem, uma minoria, graças a Deus! Mas é uma possibilidade remota, um monstrinho que está ali dormindo. O Brasil vai passar por um processo democrático longo e vai amadurecer, porque o sistema democrático é o único que pode ser melhorado.


Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, em 1958. Cursou o primário com os padres jesuítas em Diamantino-MT e mudou-se para Cuiabá aos 10 anos. Mora em Brasília desde 1974. Três anos depois lançou seu livrinho mimeografado, "Iogurte com Farinha", o primeiro de muitos. Em 1978 foi preso e processado pelo DOPS por porte de material pornográfico sendo julgado e absolvido no ano seguinte. A partir de 1980 passou a trabalhar como redator em agências de publicidade e se engajou no movimento ecológico. Em 1986 trabalhou na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza, onde ficou até 1990, dedicando-se profissionalmente desde então ao seu antigo hobby: produção de espécies nativas do cerrado, através da Pau-Brasília viveiro eco.loja, ainda hoje em atividade. Voltou a publicar a partir de 1993, com “Porque Construí Braxília”. Em 2004, no livro “Nicolas Behr – Eu Engoli Brasília” – volume I da Coleção Brasilienses - o jornalista Carlos Marcelo traçou seu perfil biográfico. Em 2008 seu livro “Laranja Seleta foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. O filme “Braxília” (17 minutos), de 2010, da cineasta Danyella Proença, ganhou vários prêmios em festivais de cinema. Sua obra tem sido objeto de várias dissertações de mestrado pelo país. Em 2015 o Instituto de Letras da Universidade de Brasília instituiu o “Prêmio Nicolas Behr de Literatura. Nicolas adora Brasília.

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