Texto por Juliana Marques
Arte: Michael Rios
Estava pensando a respeito do que escrever e acabei me deparando com os milhares de compartilhamentos sobre a boneca mais famosa dos últimos tempos, sinônimo de beleza e moda. Mesmo sendo difícil admitir ela é o ideal de beleza de muitas meninas e a idealização de diversas pessoas sobre o que é ser mulher.
Ainda no começo dessa semana comecei a me perguntar o motivo desses milhares de compartilhamentos a respeito das novas formas da boneca que mais impõe rótulos. Todas poderemos enfim sermos contempladas pelos novos pedaços de plástico moldado? Na verdade, não.
A velha boneca, branca, loira, magra e de olhos azuis continua intacta em sua onipotência de que é a soberana, ela não é negra, nem tem cabelos de caracóis, não tem medidas acima do 36, continua intacta assim como sempre esteve, não utiliza a cadeira de rodas tal qual Becky, sua amiga - aliás Becky nem mesmo é produzida hoje enquanto a Barbie continua sendo a atriz principal dos seriados, filmes e jogos de videogame "para meninas".
Milhares de meninas assim como eu já tiveram ao menos uma Barbie em suas mãos, já olharam para ela e para o espelho ao mesmo tempo, já alisaram tanto os cabelos com a escova que chegaram a arrancar os fios, não se identificaram com a cor da pele, já quiseram ser a Barbie em frente ao espelho e se tornaram-na não porque quiseram, mas sim por ser uma imposição e por esse motivo, só por esse, eu entendo o porquê de tantos compartilhamentos.
Mas esse fato não irá inibir a exclusão e o desencantamento diante ao diferente. Becky deixou de ser produzida depois que a fabricante passou sua mensagem de apoio aos deficientes, mas continuam havendo crianças como ela, elas não deixaram de ser deficientes, não deixaram de ser excluídas. Eu entendo o encantamento diante a essa nova ideia de ter perto de si tantas bonecas brancas de olhos azuis e não se identificar com nenhuma, mas também entendo que para a empresa tudo é apenas um jogo de mercado, onde bonecas são simples pedaços de plásticos moldados para reproduzir padrões e se ter lucro.
Nos deparamos com o século da comunicação, século XXI onde nada é impossível, nada é improvável, onde a verdade pode ser vista por vários ângulos e a mentira essa pode ser facilmente escondida atrás de algumas palavras, padrões, costumes, gírias, gestos, em geral tudo que utilizamos em nossa rotina, nos é passado como algo natural. Acarretando um processo que ignora e recrimina o diferente, cria-se um estigma sobre aquele determinado indivíduo que tem condutas que frustram a normalidade daquela sociedade, criamos um sistema em que nos tornamos objetos de nossas ações, nós nos vigiamos e vigiamos o outro, ''A domesticação foi algo que os seres humanos sempre fizeram para melhorar e assegurar as suas vidas quotidianas '' (SILVERSTONE, 2006).
A mídia televisiva acompanha os acontecimentos rotineiros. Existe um episódio dos Simpsons de 1995, “Lisa e a Boneca Falante”, em que se satiriza o poder da Barbie que durante anos vem impondo a meninos e meninas formas de pensar o padrão de beleza, comportamento e etc. Nesse episódio Lisa compra uma boneca Malibu Stacy falante, cuja as frases são de total submissão ao sexo masculino, ''— Não me pergunte, sou apenas uma garota'', ''— Vamos fazer compras?''.
Lisa Simpson, a personagem budista, vegetariana e politicamente engajada é ideal para se discutir esse tipo de assunto. Nas diversas imagens de seu futuro ela é mostrada como alguém que quer mudar o mundo e sofreu bullying por sua forma de se vestir e se portar. Essa é a imagem criada para destoar de todo um universo que vê e desenha o feminino como algo frágil e quebrável muitas vezes ligada a sensualidade e ao sexismo, onde até mesmo quando meninas que não se identificam com a figura frágil das princesas querem ser heroínas, vão se encontrar presas ao estereótipo do corpo perfeito, das curvas e roupas curtas.
Lisa é cada uma das crianças, entre meninas e meninos, que já quiseram se encaixar na pequena caixa da Barbie na qual não cabiam, a idealização do que é ser mulher e do que é ser homem começa a ser empregada ainda na infância, é na infância que as frases do que pode e do que não pode de acordo com seu sexo começam a ser textualizadas.
“Não bata como uma menina”, “Não senta assim”, “essa boneca é a sua cara”,
“se comporte como uma mocinha”, “meninos não brincam de casinha.”,
“Larga isso aí, isso é da sua irmã”, “Isso é coisa de Frutinha”.
“Meninas brincam de boneca e meninos de bola”
Essas e tantas outras frases já fizeram parte da vida de muita gente. A exclusão e a domesticação, o olhar inquietante do outro para aqueles que não se adequam a um padrão social, aos que não tem uma tribo, aos que são diferentes e não se importam com esse fato. Esses olhares impõem estigmas, como se a diferença entre o eu e o ele, fosse um crime, impõe ideias, conceitos, o diferente se torna a ameaça e por ser uma ameaça à suposta normalidade, busca-se a exclusão.
No clipe de 2004 de ''Barbie em a princesa e a plebeia'', são informados os hábitos de uma princesa, ''ter mil sapatos'', ter ''conduta exemplar'' além de informar que mesmo se ela ''não gostar, ela tem que dizer sim''. Nos remetendo novamente ao papel do masculino e do feminino e de como essa ideia é trabalhada na mídia, por que as meninas não podem brincar de jogos de guerra? Por que elas têm que saber se comportar bem? E principalmente por que meninas não podem ocupar determinadas profissões, ter carreiras de sucesso, por que não se pode ter a representatividade do que é ser mulher?
No episódio já citado dos Simpsons, Lisa tenta fazer de tudo para mudar essa imagem que a boneca tenta passar, ela contata a criadora da Malibu Stacy e sugere que ela possa ser a modelo (físico) para a criação, mas segundo a criadora ela não tem o ''padrão (estético) perfeito'', assim como a MATTEL que cria outras bonecas para mostrar a ‘‘diversificação’,' mas no final o plástico apenas mudou de cor. Quando Lisa finalmente consegue com a ajuda da criadora uma nova boneca batizada de ''Lisa Coração de Leão'', no qual as frases eram encorajadoras, ela não consegue sucesso porque o dono da franquia da Malibu coloca um chapéu na boneca que, fora isso, continua a mesma, incluindo as frases.
A nova reforma do visual de nada significa, não importa se vão ser sete tons de pele, quatro tipos de corpos, 22 cores de olhos e 24 estilos de cabelos diferentes, nenhuma delas será a Barbie, porque essa - segundo mensagem da própria fabricante - continua sendo única e perfeita e todas as outras são só as amigas da Barbie. Seria cômico se não fosse trágico a empresa após 57 anos de imposição de uma beleza esteticamente impossível de se possuir, resolve contemplar e reconhecer outros tipos de mulheres, será que essas mulheres agora contempladas deveriam sorrir e agradecer ou deveriam rir da cara da fabricante, afinal sua existência não depende do reconhecimento de uma boneca, dentro desses 57 anos inúmeros padrões de mulheres sempre existiram. Ironicamente tal fato ocorre justamente quando segundo a jornalista Eliane Brum (El País), quando houve uma queda significativa nas vendas.
Dentro desse círculo de 57 anos muita coisa aconteceu, mulheres se tornaram presidentes, amaram seus corpos, reconheceram suas diferentes belezas, venceram lutas em ringues, lutaram pelo protagonismo, por respeito, por igualdade e reconheceram que não é uma boneca magrela que vai nos fazer ser mulher. A mídia embuti a ideia da mulher perfeita em forma de plástico e potes de creme apenas para se enquadrar dentro de um mercado, não existe perfeição, mulheres vão continuar sofrendo com o machismo, vão continuar a ser ensinadas a ser submissas e a entrar em um padrão para não ser excluída, mulheres vão continuar lutando por direitos, respeito e igualdade.
Não é necessário presentear uma menina com uma boneca para ela saber o significado do que é ser menina, ela tem o direito de ser o que quiser, de jogar bola e brincar na lama, inclusive o direito de não ser menina.
Fontes de pesquisa:
Novos Regimes de visualidade e descentramentos culturais
Jesús Martín-Barbero
Gênero Sexualidade e Educação / uma perspectiva pós-estruturalista
Guaciara Lopes Louro
Estigma- capítulo Estigma e identidade Social
Erving Goffman
Artigo: Domesticando a domesticando a domesticação. Reflexões sobre a vida de um conceito
Roger Silverstone


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