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Além da bela, recatada e 'do lar'


Texto por Ana Luz e Juliana Marques
Arte: Michael Rios Em uma semana cuja a polêmica central é o processo de Impedimento da Presidenta apoiado por deputados de caráter duvidoso, qual o motivo para a matéria de uma revista ser assunto? “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar’’’ a matéria da revista Veja contrapõe a capa de uma outra revista do mesmo grupo editorial, a ISTOÉ, intitulada “As explosões nervosas da Presidente’’. Qual o grande problema com essas duas matérias? O que quiseram nos dizer nesse pequeno intervalo de tempo em que foram lançadas? Machismo, sexismo, pretensão humana ou jogo de poder? Deixo para vocês escolherem... Provavelmente você não terá a resposta para nenhuma dessas perguntas ao longo do texto, ou talvez até tenha, dependendo do seu ponto de vista. Antes de falarmos de Marcela falaremos das supostas explosões nervosas da então Presidenta, Dilma Rousseff, na matéria publicada pela ISTOÉ. Ao que foi dito, com a aproximação do julgamento pelos deputados, a presidenta, segundo “fontes seguras” ou não tão seguras assim, teria dado indícios de desiquilíbrio emocional, loucura, “os remédios pararam de fazer efeito”, pelas palavras de outros ela foi tida como louca e incompetente e isso colocaria o país em risco. É, presidenta, parece que estão querendo dizer que além da suposição da senhora ser louca, desequilibrada emocionalmente e não poder conduzir o país, aparentemente a senhora também não é recatada o suficiente para ocupar essa cadeira, além de não ter “Nervos de Aço’’, parece que as definições de outrem são mais valiosas do que as que se pode fazer a cerca de seu mandato presidencial ou de uma entrevista com a própria. Agora sim, voltemos ao caso de Marcela Temer. Enquanto eu lia a reportagem em questão, algo muito interessante se fez presente, Marcela não tem voz na matéria, ela é mera figurante em uma reportagem que a torna estrela. Não se tem a fala dela, sabemos quem ela é pelos olhares dos outros, pelo cabeleireiro, pelo marido, pela irmã, pela mãe, mas nunca por ela. A mulher perfeita, dona dos versos quentes do vice-presidente é também uma mulher sem voz, que não se definiu ‘’Bela, Recatada e do Lar’’; a definiram assim, e exatamente por isso ela se tornou calada, ela foi calada, e idealizada. Idealização? Essa palavra é conhecida pela maioria das mulheres, a polêmica frase de Simone Beauvoir exemplifica bem isso:
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como outro. (BEAUVOIR. Simone de. 1967:09).
A avalanche da tag #belarecatadaedolar, assim como tantas outras, trouxe o tema do protagonismo feminino. Ser mulher se torna uma tarefa de risco em nossa sociedade historicamente programada para ser machista e patriarcal, da mesma forma, nós temos o direito de escolhermos sermos quem quisermos, de vestirmos o que nos faz feliz, nós temos o direito de sair na rua sem os olhares devoradores e inquisitórios em nossos corpos, a reportagem em si quis dizer que o lugar de mulher é ali na casa, cuidando dos filhos, do marido, com saia até o joelho para não alcançar olhares indevidos, sendo recatada, ocultada, calada, tão calada que não coube a ela sua própria definição. Nós não deveríamos ser pré-julgadas, pré-moldadas ou predestinadas a algo. Marcela, assim como qualquer uma de nós, pode não ter tido escolhas para se definir, escolheram por ela, tal qual fazem com cada uma de nós. Ao dizermos que alguém é “do lar” se colocar implícito que este alguém pertence ao lar e não o contrario. Já está na hora de mudarmos “do lar” por a dona da casa, aonde o sujeito é de fato dona da sua casa e não parte pertencente da mesma. Façamos então essa reflexão do ser “Dona”. Dona da casa, da vida, dos direitos, do corpo, do seu corpo e poder tingi-lo da forma que bem entender, manchá-lo, usá-lo, despir-se dele afinal ele é meu, ele me pertence. Ser Dona é pertencer, é invadir, é se fazer presente, é transitar por todos os cantos sem ser julgada por isso. Nossos lábios pintados assim como nossas unhas manchadas pelo vermelho escarlate, a cor do sexo, a cor proibida, a cor inquietante, não nos definem, o mundo não é Nude, Vermelho ou Preto e Branco, o mundo é Colorido, uma cor em nossos corpos não nos diz quem somos, ou a sorte e o azar de quem está ao nosso lado, e mesmo se dissesse isso não seria motivo para nos julgarem, o corpo é nosso e fazemos com ele o que bem entendermos. O corpo é nosso, mas a ideologia é social e para uma boa parcela da sociedade, os corpos só são perfeitos, longe de marcas, pinturas, sem desejos, ocultos não pelos panos que os cobre mas pelas ideologias transpostas a nós. Uma mulher não pode amamentar sem ter olhares dos mais variados sobre si, olhares de reprovação, de inibição, olhares de julgamento. O que tem de errado afinal de contas com o seio feminino? É apenas uma parte do corpo, do meu corpo, do seu corpo, do nosso corpo, ninguém deveria se intrometer nessa ação, amamentar não é uma atividade criminal, o que tem de errado? Para muitos, poucos ou alguns o seio feminino é o sinal da pureza, assim sendo ele deve ser protegido, recatado, ocultado. A nudez feminina e a nudez masculina são tratadas de formas muito diferentes pela nossa sociedade, assim como qualquer outra ação que envolva a mulher e o homem, diga-se de passagem. Não é segredo para ninguém que homens e mulheres podem ocupar a mesma cadeira profissional, mas a forma com que vão receber por essa cadeira, vai ser completamente distinta. Homens ainda ganham mais que mulheres. Mulheres ainda são estigmatizadas por serem mulheres, por gerarem filhos, por terem hormônios diferentes dos masculinos. Caem à elas ideologias nunca provadas cientificamente, suas ideias, seu cognitivo, sua capacidade, não vale de nada, ela é meramente julgada como um ser inferior, que não importa o quão esforçada seja vai sempre se encontrar em segundo lugar, por não ser mais forte, por ser menos frágil, por ser propícia a gravidez, por ser emotiva, por não querer ter filhos, por ser depravada, incorreta, errada, no final das contas elas são julgadas por serem mulheres e isso na nossa sociedade é um erro. Não existe problema nenhum em escolher ser ‘’Bela, Recatada e do Lar’’, mas isso pode não ter sido uma escolha de Marcela, assim como não foi uma escolha de muitas de nós os rótulos que nos impuseram. Provavelmente Marcela é muito mais que isso, muito mais que o apêndice do vice-presidente, muito mais que a mãe que cuida do filho ou da mulher que envia vídeos engraçadinhos para entreter o marido.
Rótulos? Rotular. Programar. Nossas mães, nossas avós, tias ou primas sofreram com essas ideologias impostas sem perguntas, elas desbravaram mares, lutaram, conquistaram, bateram de frente com o mundo e sobreviveram a ele. Diga-se de passagem, por conta da coragem de muitas dessas mulheres abandonadas por suas famílias, filhos e maridos, que deram a volta por cima, enquanto sofriam pelos olhares de uma sociedade que a culpava por tudo, é que a nossa geração pode enfim gritar que estávamos sendo oprimidas, suprimidas, engolidas e esquecidas.
Foi graças a essas mulheres “do lar, da vida e do mundo” que aprendemos a caminhar, a lutar, a quebrar e a derrubar. Não existe problema em escolher viver uma vida para os filhos, em fazer uma revolução de amor, mas o que não pode acontecer é essa se tornar a única coisa que define o que é ser mulher. Mulheres podem escolher não serem mães, não terem maridos, não serem recatadas, afinal o quê significa essa palavra mesmo? Mulheres são mais do que simplesmente mulheres.
Em muitos momentos também não coube a nós nossa própria definição, escolheram nossas roupas, nossos penteados, o tom da nossa maquiagem, o som da nossa voz, o que deveríamos ser e para quem ser, Marcela tem o direito de ser o que ela quiser, não o que a Veja quer que ela seja, e pior ainda a tornar um modelo ideal a ser seguido dizendo nas linhas invisíveis que a mulher direita não deve estar à frente dos negócios, não deve se encontrar no comando do país, que mulher não serve para comandar sem causar ‘’histeria’’, isso ficou bem provado por nossos ilustres deputados.
Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece. Não ensinamos os meninos a se preocupar em ser “benquistos”. Se perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, elogiamos ou perdoamos os homens pelas mesmas razões. Em todos os lugares do mundo, existem milhares de artigos e livros ensinando o que as mulheres devem fazer, como devem ou não devem ser para atrair e agradar aos homens. Livros sobre como os homens devem agradar às mulheres são poucos.Criamos as meninas de uma maneira bastante perniciosa, porque as ensinamos a cuidar do ego frágil masculino (ADICHIE, Chimamanda. Sejamos Todos Feministas. 2014)
Ensinamos os meninos a respeitarem as meninas por serem meninas, por serem “quase” uma “entidade” frágil que merece proteção, nós ensinamos isso errado, deveríamos ensinar que devemos respeitar as meninas por serem pessoas e qualquer pessoa merece respeito.
Quando entramos na questão do respeito por vezes nos deparamos com protagonismo, você só pode falar daquilo que viveu, cada Mulher CIS* ou TRANS vive as imposições sociais do que é ser mulher, o direito, o protagonismo, os conceitos preestabelecidos se tornam complementares. O motivo dessa frase se fazer presente nesse texto é simples, como qualquer tag que se espalhe pela internet em algum momento a razão inicial acaba distorcida, em sua maioria por homens.

Ah, homens! Machos alfas, pré-concebidos socialmente para ter prazer e não para dar. Esse não é o assunto, a questão do protagonismo quando isso ocorre acaba sendo corrompido, acaba se criando uma caricatura, um deboche. O que os homens entendem do que é ser mulher se eles são homens? O que significa ser bela, recatada e “do lar”? À eles não são impostos que sejam belos, recatados e do lar como se isso fosse uma obrigação.

Mas o que acontece quando se impõe à nós mulheres esse rótulo, o que sobra aos pobres homens, tão vorazes? Essa com toda certeza é uma boa pergunta e não quer dizer que a rotulação feminina não tenha um impacto sobre a formação masculina, porque qualquer criatura que não se adequar ao que a sociedade espera de um homem vai ser excluído e rotulado tal qual fazem com nós mulheres. A sociedade realmente é muito cruel.


Fontes de Pesquisa: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todas Feministas. Christina Baum (Tradução) – São Paulo: Editora Schwarcz S.A, 2014 BEAUVOIR, Simone. O segundo Sexo –Fatos e Mitos – São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970 GOFFMAN Erving. Estigmas – Notas sobre manipulação de identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogar, 1988 Reportagens: Sérgio Pardellas e Débora Bergamasco. “Uma presidente fora de si” ISTOÉBRASIL Disponível em: http://www.istoe.com.br/reportagens/450027_UMA+PRESIDENTE+FORA+DE+SI Juliana Linhares. Marcela Temer: bela, recatada e “do lar” Veja Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/bela-recatada-e-do-lar




*CIS - cisgênero, significa 'do mesmo lado' a pessoa que se identifica ou reivindica com o gênero de originalmente lhe registraram.

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